AIEXEGESIS (AIXEGESE) E O RISCO ESTRUTURAL DE EISEGESE AUTOMATIZADA EM MODELOS DE LINGUAGEM

RESUMO

Este artigo propoe e define a categoria AIEXEGESIS (tambem grafada AIsegesis; em portugues critico, AIXEGESE) como uma forma sistemica e estrutural de eisegese produzida por modelos de linguagem. Diferentemente de um erro ocasional ou de uma alucinacao pontual, a AIEXEGESIS e caracterizada por substituicao epistemologica: a resposta e construida a partir de padroes culturais de alta frequencia (tradicao, comentario, harmonizacoes, retorica devocional, consensos popularizados), mas apresentada com estetica e autoridade aparente de exegese.

Argumenta-se que tal fenomeno emerge de arquitetura, dados de treinamento e incentivos de otimizacao (fluencia, completude e alinhamento narrativo), afetando dominios de alta densidade interpretativa como Biblia, direito, historia e ciencia.

Palavras-chave: AIEXEGESIS. AIXEGESE. Eisegese. Exegese. Modelos de linguagem. Rastreabilidade. Auditabilidade.


1 INTRODUCAO

A exegese define-se por metodo: extrair sentido do texto com base em evidencia primaria, gramatica, sintaxe, analise lexical, contexto, delimitacao de escopo e rastreabilidade. A eisegese, por contraste, define-se por desvio: inserir no texto uma tese externa e apresenta-la como se fosse derivada do texto.

Na contemporaneidade, a expansao de modelos de linguagem para tarefas interpretativas evidenciou um fenomeno especifico: respostas que parecem exegeticas, porem frequentemente reproduzem tradicao, catequese ou heuristica cultural, sem declarar camadas, sem trilha de fonte e sem distinguir dados, inferencias e sintese secundaria.

Este artigo denomina esse fenomeno de AIEXEGESIS (AIsegesis; AIXEGESE). A tese central e que nao se trata de erro ocasional, mas de risco estrutural, derivado da propria forma de treinamento, curadoria, otimizacao e avaliacao de modelos.


2 DEFINICOES OPERACIONAIS E DISTINCOES CONCEITUAIS

2.1 Exegese (definicao operativa)

Procedimento de extracao de sentido do texto por:

  • (a) evidencia primaria
  • (b) analise gramatical e sintatica
  • (c) analise lexical
  • (d) contexto imediato e ampliado
  • (e) delimitacao explicita de escopo
  • (f) rastreabilidade de fontes, traducoes e variantes
  • (g) distincao entre dado, inferencia e hipotese

2.2 Eisegese (definicao operativa)

Procedimento de insercao de tese externa no texto por:

  • (a) pressuposto previo nao declarado
  • (b) reducao de polissemias
  • (c) imposicao de conclusao
  • (d) harmonizacao nao demonstrada
  • (e) colapso de variantes em leitura unica
  • (f) emprego de conectivos interpretativos (“portanto”, “logo”, “isso significa”) sem demonstracao textual

2.3 AIEXEGESIS (definicao operativa)

Forma emergente e automatizada de eisegese produzida por modelos de linguagem, caracterizada por:

  • (i) recorrencia estrutural, ainda que sem intencao
  • (ii) amplificacao por prior cultural do corpus
  • (iii) inducao por incentivos de otimizacao (fluencia, completude e fechamento narrativo)
  • (iv) substituicao epistemologica, na qual o modelo entrega “o que costuma ser dito sobre o texto” com aparencia de “o que o texto diz”

2.4 AIEXEGESIS nao se confunde com alucinacao

Alucinacao consiste em afirmacoes inventadas ou factualmente falsas. AIEXEGESIS e problema de estatuto documental e metodo: a fonte primaria e substituida por sintese cultural secundaria. E possivel haver AIEXEGESIS mesmo com proposicoes factualmente verdadeiras.


3 FUNDAMENTOS TECNICOS DO RISCO ESTRUTURAL

A AIEXEGESIS decorre de uma assimetria essencial: modelos de linguagem nao “leem” como leitores filologicos; produzem texto por padroes estatisticos aprendidos em corpora heterogeneos. Essa estrutura gera quatro vetores principais de risco.

3.1 Mistura de fontes sem rotulagem por estatuto

Textos primarios, comentarios academicos, confissionais, resumos populares e conteudo opinativo sao incorporados ao treinamento sem metadados suficientes. Na pratica, a origem documental tende a ser tratada como equivalente, permitindo que parafrases, harmonizacoes e glossas se comportem como “evidencia textual”.

3.2 Curadoria insuficiente em criterios filologicos

O modelo aprende parafrases como literalidade, harmonizacoes como coerencia original e glossas tardias como semantica do texto. Em dominios sensiveis, isso produz deslocamento metodologico: o resultado e uma resposta elegante, porem nao demonstrada.

3.3 Priorizacao por frequencia cultural

Em ambientes saturados por tradicao, o “mais frequente” torna-se “mais provavel”. Em textos curtos, ambiguos ou disputados, a resposta tende a estabilizar uma leitura majoritaria como se fosse necessaria, sem declarar disputa ou variacao interpretativa.

3.4 Incentivos de alinhamento e completude

Modelos sao pressionados a produzir respostas “redondas”, evitando silencio e preenchendo lacunas com plausibilidade. Em exegese, contudo, o procedimento correto frequentemente exige qualificacao, enumeracao de alternativas ou suspensao de conclusao.


4 O MECANISMO DE SUBSTITUICAO EPISTEMOLOGICA

O nucleo da AIEXEGESIS consiste no fato de que o texto deixa de ser fonte e torna-se gatilho. O modelo e acionado por um trecho, mas responde a partir de consenso cultural aprendido, frequentemente sem delimitar camada.

Esse mecanismo pode ser descrito em tres etapas:

  1. Ancoragem superficial (verso, termo, tema)
  2. Recuperacao implicita do consenso (tradicao, harmonizacao, leitura padrao)
  3. Estetica de metodo (vocabulario tecnico e conectivos interpretativos) que converte inferencias nao demonstradas em conclusoes

5 IMPACTO ESPECIFICO EM TEXTOS BIBLICOS

A gravidade da AIEXEGESIS aumenta no dominio biblico por saturacao cultural. O corpus digital contem volume expressivo de sermoes, devocionais, apologetica e “explicacoes prontas”, em quantidade superior a literatura filologica acessivel ao publico geral.

O modelo tende a reproduzir esse senso comum como exegese, entregando clareza linguistica como se fosse validacao epistemica.

Alem disso, modelos frequentemente:

  • (a) harmonizam tensoes
  • (b) colapsam polissemias
  • (c) escolhem leituras majoritarias sem declarar controversia
  • (d) apagam variantes
  • (e) dependem de traducoes especificas sem declarar

6 DIMENSAO JURIDICO-TECNICA

Em linguagem juridico-tecnica, AIEXEGESIS pode ser descrita como risco de falsa aparencia de fundamentacao. A resposta apresenta estrutura argumentativa e conclusiva, mas nao apresenta cadeia de prova: texto-base demonstrado, analise gramatical, delimitacao de escopo, variantes, fontes, distincao entre dado e inferencia.

Em termos epistemicos, substitui-se prova por plausibilidade, com producao de confianca indevida.


7 CRITERIOS MINIMOS PARA IDENTIFICACAO DE AIEXEGESIS

Propoe-se criterio minimo para deteccao e auditoria:

CriterioDescricao
(A)Presenca de termos centrais nao ancorados no texto
(B)Conectivos interpretativos inseridos sem demonstracao
(C)Colapso de polissemia em leitura unica nao marcada
(D)Dependencia oculta de traducao especifica
(E)Ausencia de trilha de fonte e de delimitacao de camadas

Tais criterios distinguem AIEXEGESIS de imprecisao: sao criterios de metodo e de estatuto documental.


8 MITIGACAO: POR QUE NAO E “PROMPT ENGINEERING”

Mitigar AIEXEGESIS exige disciplina e arquitetura, nao apenas instrucoes de prompt. Um sistema minimamente serio deve:

  • (a) separar camadas (primaria, interpretativa rotulada, popular)
  • (b) operar em modo exegetico estrito em dominios sensiveis
  • (c) citar o texto-base e variantes relevantes
  • (d) declarar escopo e limites
  • (e) marcar inferencias
  • (f) preservar polissemias e alternativas
  • (g) manter auditabilidade

9 CONCLUSAO

Conclui-se que AIEXEGESIS e uma forma estrutural de eisegese automatizada, decorrente do treinamento e otimizacao de modelos de linguagem, caracterizada por substituicao epistemologica de documentos sensiveis por tradicao de alta frequencia.

Seu risco nao reside apenas em errar, mas em errar com estetica de metodo, gerando terceirizacao de discernimento e confusao entre fluencia e evidencia.

Seu enfrentamento demanda rastreabilidade, separacao de camadas e protocolos de resposta etica, recolocando a IA como ferramenta de leitura e nao como substituto silencioso da evidencia.